terça-feira, 8 de junho de 2010

Geração Twitter


Está na hora das pessoas se falarem mais e se esconderem menos atrás de relacionamentos virtuais. Nenhum site deveria conseguir limitar o diálogo humano a 140 palavras. Que resultados o incentivo a comportamentos de isolamento da era digital trará à vida das pessoas? E quando elas precisarem de atenção?

A superficialidade das relaçoes meteóricas que se tornam referência a cada dia, aponta para um novo tempo em que a pobreza no conteúdo formal e emocional atinge grau alarmante. Parecer o esperado é muito melhor visto do que ser autêntico. Criticar construtivamente já é, há tempos, um tabu. Ser prolixo é ser chato e soa desinteressante.

Devemos sempre evoluir e aprofundar conversas, aprender e trocar idéias livremente.
O tempo é nosso e devemos fazer o que quisermos dele. Ser breve e ter pressa estão na moda, mas a moda é somente mais uma entre tantas ditaduras que preferimos acreditar que não nos atinge.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Eu..robô?



Muitas pessoas ao observar o tamanho deste texto cogitarão, ainda que por um breve instante, a hipótese de desistir de ler antes mesmo de tentar. O frenesi e a velocidade caótica do capitalismo atual imprimiram nas pessoas um ritmo robótico que doutrina seus sentidos e fragiliza suas relações interpessoais de maneira avassaladora.
Conversas que antigamente eram de corpo presente passaram a ser feitas por telegramas, cartas, telefone, e mais recentemente se tornaram virtuais através de email, sites de relacionamento etc. O toque, o olho no olho, o abraço e outras trocas importantes para esse equilíbrio emocional humano hoje chegam a ser ditados por marcas, que estipulam até quantas palavras podemos digitar em cada mensagem. No caso do Twitter, são 140.
Essa objetividade compulsória certamente cobra um preço muito caro quando se internaliza nas pessoas. Assuntos são tratados como números exatos, clientes como códigos, reflexões mais profundas sobre a maioria dos assuntos são sumariamente rejeitadas. O que resta é um tempo cada vez mais curto para nos relacionarmos e pensarmos sobre um mundo cada vez mais complexo, carregado de informações e repleto de variáveis e possibilidades. A impressão que fica, é que talvez o medo do incerto tenha apontado nossas atenções para o futuro, para projeções ainda por vir. O presente, era esta na qual vivemos, simplesmente fica de lado.
A necessidade de achar espaço para a quantidade de informação faz com que cada vez mais seja inviável nos aprofundarmos nos assuntos. O problema é que as pessoas não deixaram de ser complexas, densas, carentes, frágeis ou sensíveis enquanto humanas. A cena clássica de Chaplin operando roboticamente um torno mecânico no filme “Tempos Modernos”, certamente é mais atual que quando foi filmada.
É preciso valorizar também a teoria, dissertar livremente sem pressa ou culpa, ter tempo para pensar e se expressar. Grandes idéias surgem de longos “brain storms” e os melhores insights nascem longe de pressões de tempo e dinheiro. A palavra chave será sempre equilíbrio.
O importante é encontramos nosso próprio ritmo, que às vezes pode ser livre e improvisado como jazz, intenso como o rock, calmo como a música clássica, alegre como o samba, formal como o tango, etc. Esperamos sempre que o maestro, músico ou dj nos deixe participar das suas escolhas e que não interrompam nossa música na metade ou porque é hora do comercial.

Você conhece Shawn Fanning ?


A busca incessante por lucros, a guerra de números e toda carga competitiva e individualista que advém do nosso modelo de sociedade reflete-se em casos curiosos de interação entre empresas e pessoas. Não podemos precisar se as conseqüências dessas relações são conscientes ou inconscientes. O relevante aqui é que a sociedade muitas vezes reage e rompe padrões de forma normalmente irreversíveis. Assim, toda a capacidade de previsão e controle que as empresas gastaram fortunas para desenvolver, cai por terra.
Nos bons tempos do mercado fonográfico, artistas tinham liberdade de expor suas idéias e eram bem menos limitados por gravadoras multinacionais, produtores musicais gananciosos, gerentes de marketing etc. Músicas podiam ter 10 minutos, arranjos podiam soar estranhos e originais, refrões repetitivos não eram obrigatórios. Ao mesmo tempo, a necessidade de gerar receita e impor seus artistas pouco talentosos, tornou necessários suntuosos investimentos em publicidade, estratégia e marketing. Em termos metafóricos poderíamos dizer que dinheiro gera exposição, convence e transforma artistas medianos em astros.
Assim, normas foram criadas: 3:30 minutos para cada música, um disco tem que ter 12 canções, estilista contratados para assessorar nas roupas, etc. As rádios cada vez mais passaram a cobrar para colocar no ar os artistas dessas gravadoras, afinal se eles gastam tanto seria justo a rádio dividir essa fatia do bolo também.
Mais tarde, no ano de 1999 um universitário americano chamado Shawn Fanning fundaria o Napster, um site de trocas de música online, que seria o início da resposta ao preço astronômico que os discos atingiam dado os gastos da gravadora na tentativa de ditar o gosto das pessoas. Concomitantemente ocorreu um significativo advento de processos que baratearam equipamentos de estúdio tornando possível se montar uma central de gravação em um quarto de um apartamento com baixo investimento.
Hoje os músicos produzem e divulgam seu trabalho diretamente, e as gravadoras perderam sua utilidade e navegam por prejuízos astronômicos basicamente pelo fato de não terem tido humildade ou capacidade para entenderem de pessoas. Não souberam ganhar dinheiro ouvindo as pessoas e respeitando seus gostos, castraram a liberdade do artista, deixaram os talentosos de lado e investiram em marketing, e preferiram ditar as tendências. Infelizmente levaram para o fundo do poço, junto com eles próprios, direitos autorais de compositores e criadores, mas isso ainda vai ser resgatado pelos próprios artistas que cada vez mais tendem a serem donos de suas obras. Viva o Shawn!!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O marketing e a vida...

As empresas e lojas no bombardeiam diariamente com todo arsenal de mirabolantes planos de persuasão, treinamentos teatrais junto a equipe de vendas, atendimentos via clichês ricos em gerúndio e insistentes apelos emocionais ao bem estar das famílias. Nunca sabemos se treinam demais porque sabem que não agradam ou se não agradam porque são treinados demais. Tais marcas esquecem que o melhor atendimento ainda é o humano, de gente pra gente, e que simplesmente bastaria um atendente se colocar no lugar do cliente. Mais nada.
Foi-se a época que você contava com a atenção e o olhar das pessoas até para te dar uma informação de onde encontrar aquilo que somente outra empresa teria. Enquanto consumidores somos apenas um número na fila de atendimento ou no cadastro de clientes; se não estamos ali para gerar lucro instantâneo simplesmente não existimos no momento. Ainda podemos encontrar esse tipo de boa vontade no interior do Brasil, mas nas cidades grandes o semblante de quem nos atende muitas vezes assusta. Certamente as empresas também não estimulam seus funcionários a darem o melhor de si.

Ao mesmo tempo em que a realidade é tão agressiva, existem exceções que merecem ser lembradas. Algumas pessoas nascem ou desenvolvem o dom de ser tudo o que os teóricos de marketing levam décadas escrevendo de forma tão confusa e pseudo-moralista no que tange a relações comerciais. Repare como textos de marketing sempre passam uma noção de como o autor acha fácil que pessoas sigam seus ensinamentos e transformem um ambiente comercial tenso numa Disneylândia. A história a seguir narra meu encontro com uma dessas exceções que eu chamo simplesmente de gente.
Em bairros tipicamente elitistas como Ipanema, arranjar pequenos consertos de peças mais simples torna-se extremamente penoso. Como são tarefas muito rápidas fica difícil para o prestador de serviços cobrar o preço do tamanho da sua ilusão de que todos no bairro são milionários. Ainda mais quando estamos nos referindo a profissões extintas como sapateiros, relojoeiros, alfaiates etc. Foi justamente numa ocasião em que se fez necessário um pequeno trabalho de reposição de uma bateria de um relógio, que eu conheci a figura encantadora do Sr. Fernando.

Eu vaguei por alguns minutos em Ipanema e ao entrar na galeria 303 da Visconde Pirajá me deparei com uma loja (Florenza) que fugia ao padrão das joalherias multinacionais que estendem tapetes vermelhos, servem champagne e seguem a risca os ensinamentos de seus diretores de marketing e vendas. Curioso, entrei e fui recebido por uma simpática atendente (gentileza e simpatia são contagiantes) que me pediu 2 minutos até que a pessoa responsável terminasse uma consulta em andamento. De longe eu observava aquele senhor que parecia cativar sua cliente ao ponto de parecerem velhos amigos, com sorrisos e muita boa vontade que não se aprende em livros. Eis que chega minha vez...
O sorridente senhor me cumprimentou, sentou-se em sua mesa, pegou meu relógio e examinou. Pegou várias ferramentas, testou uma infinidade de modelos de bateria que poderiam me servir e concluiu que o modelo ideal estava em falta em sua loja. Eu já estava sem graça, pois ele havia polido a lente do visor do relógio, desempenado a pulseira, trocado o pino de segurança e estava aflito de não ter minha peça. Na verdade ele estava mais aflito que eu para resolver meu problema. Normalmente alguém com essa boa vontade teria terceiras intenções, me cobraria uma fortuna. Mas não era o caso do Sr. Fernando.

O simpático joalheiro me pediu 2 dias para que seu assistente trouxesse minha bateria, mas ele me ligaria avisando. Passadas as 48 horas recebo o telefonema informando que meu relógio já estava funcionando e que eu poderia passar na loja para retirá-lo. Fui até a loja, o relógio me foi apresentado mais novo de quando o comprei e eu muito agradecido perguntei quanto me custaria. O Sr. Fernando quase pareceu ofendido e disse que de maneira alguma me cobraria por algo tão simples. Eu já não sabia o que dizer. Voltei várias vezes lá e nunca mais aceitei sua cortesia de não me cobrar, pois quando alguém merece tanto nos dá vontade de pagar em dobro (será que os mestres do marketing sabem disso?). Sempre indico a loja aos amigos; é como um favor a mim mesmo quando peço que o procurem. Essas pequenas lições não podem acabar. Essas ilhas são portos seguros e flutuam perdidas nos bravos e arrogantes oceanos capitalistas.

Não sei a história desse homem, sua origem, seu passado nem sua formação. Sua loja não precisa de SAC, não anuncia na mídia, não contrata consultores internacionais pra treinar sua equipe nem é freqüentada por celebridades. Mas tenho certeza que poucas pessoas na cidade são tão queridas por seus fiéis clientes como Sr Fernando. Ele não está rico com sua empresa, mas com certeza é muito mais feliz do que muitos que fizeram fortuna em seu ramo. Ele sintetiza na prática tudo o que os livros tentam ensinar e se perdem na essência mais elementar de qualquer relação de convivência: basta ser humano para agradar outra pessoa.

Como eu queria que o Sr Fernando tivesse 300 lojas entre farmácias, restaurantes, livrarias, empresas de telefonia, etc. Com certeza eu seria muito mais feliz !!