terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A Voz do Blues




Numa visita à casa do famoso Tio Dedé, colecionador nato na família, fui pesquisando em sua gaveta de preciosidades musicais e me deparei com alguns itens dos quais nunca havia ouvido falar. Peguei uns 5 cd's emprestados, sob a promessa de que gravaria e devolveria tudo certinho dentro de poucos dias.

Entre muita coisa fora do meu gosto, eis que me deparo com aquele desconhecido pra mim, que viria a ser minha voz predileta no Blues: Little Milton. Numa coletânea simplesmente sensacional, ouvi coisas como Blind Man, Feel So Bad dentre outros "estranhamentos".

O cara tinha uma voz impressionante, dessas que vem do fundo da alma mais purista do blues, cheia de dor, emoção, entusiasmo. Uma canção em particular, viria a ser meu blues preferido de todos os tempos: A letra descreve uma espécie de "clube" para os homens de coração partido e cria metáforas sensacionais, como se uma "Relações Públicas" desse "as boas vindas" a um novo membro do clube dos desiludidos, apresentando-lhe o aparato que possuíam para aliviar a dor de seus sócios e frequentadores. Reza a letra, que ali era proibida a entrada de mulheres, pois se não fosse por elas, ninguém estaria ali sofrendo, nem existiria tal lugar, que contava ainda com os mais tristes discos pra embalar cada "dor de cotovelo".

Enfim, na minha opinião a voz mais incrível que ouvi no blues, que trago aqui, para compartilhar.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Geração Twitter


Está na hora das pessoas se falarem mais e se esconderem menos atrás de relacionamentos virtuais. Nenhum site deveria conseguir limitar o diálogo humano a 140 palavras. Que resultados o incentivo a comportamentos de isolamento da era digital trará à vida das pessoas? E quando elas precisarem de atenção?

A superficialidade das relaçoes meteóricas que se tornam referência a cada dia, aponta para um novo tempo em que a pobreza no conteúdo formal e emocional atinge grau alarmante. Parecer o esperado é muito melhor visto do que ser autêntico. Criticar construtivamente já é, há tempos, um tabu. Ser prolixo é ser chato e soa desinteressante.

Devemos sempre evoluir e aprofundar conversas, aprender e trocar idéias livremente.
O tempo é nosso e devemos fazer o que quisermos dele. Ser breve e ter pressa estão na moda, mas a moda é somente mais uma entre tantas ditaduras que preferimos acreditar que não nos atinge.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Eu..robô?



Muitas pessoas ao observar o tamanho deste texto cogitarão, ainda que por um breve instante, a hipótese de desistir de ler antes mesmo de tentar. O frenesi e a velocidade caótica do capitalismo atual imprimiram nas pessoas um ritmo robótico que doutrina seus sentidos e fragiliza suas relações interpessoais de maneira avassaladora.
Conversas que antigamente eram de corpo presente passaram a ser feitas por telegramas, cartas, telefone, e mais recentemente se tornaram virtuais através de email, sites de relacionamento etc. O toque, o olho no olho, o abraço e outras trocas importantes para esse equilíbrio emocional humano hoje chegam a ser ditados por marcas, que estipulam até quantas palavras podemos digitar em cada mensagem. No caso do Twitter, são 140.
Essa objetividade compulsória certamente cobra um preço muito caro quando se internaliza nas pessoas. Assuntos são tratados como números exatos, clientes como códigos, reflexões mais profundas sobre a maioria dos assuntos são sumariamente rejeitadas. O que resta é um tempo cada vez mais curto para nos relacionarmos e pensarmos sobre um mundo cada vez mais complexo, carregado de informações e repleto de variáveis e possibilidades. A impressão que fica, é que talvez o medo do incerto tenha apontado nossas atenções para o futuro, para projeções ainda por vir. O presente, era esta na qual vivemos, simplesmente fica de lado.
A necessidade de achar espaço para a quantidade de informação faz com que cada vez mais seja inviável nos aprofundarmos nos assuntos. O problema é que as pessoas não deixaram de ser complexas, densas, carentes, frágeis ou sensíveis enquanto humanas. A cena clássica de Chaplin operando roboticamente um torno mecânico no filme “Tempos Modernos”, certamente é mais atual que quando foi filmada.
É preciso valorizar também a teoria, dissertar livremente sem pressa ou culpa, ter tempo para pensar e se expressar. Grandes idéias surgem de longos “brain storms” e os melhores insights nascem longe de pressões de tempo e dinheiro. A palavra chave será sempre equilíbrio.
O importante é encontramos nosso próprio ritmo, que às vezes pode ser livre e improvisado como jazz, intenso como o rock, calmo como a música clássica, alegre como o samba, formal como o tango, etc. Esperamos sempre que o maestro, músico ou dj nos deixe participar das suas escolhas e que não interrompam nossa música na metade ou porque é hora do comercial.

Você conhece Shawn Fanning ?


A busca incessante por lucros, a guerra de números e toda carga competitiva e individualista que advém do nosso modelo de sociedade reflete-se em casos curiosos de interação entre empresas e pessoas. Não podemos precisar se as conseqüências dessas relações são conscientes ou inconscientes. O relevante aqui é que a sociedade muitas vezes reage e rompe padrões de forma normalmente irreversíveis. Assim, toda a capacidade de previsão e controle que as empresas gastaram fortunas para desenvolver, cai por terra.
Nos bons tempos do mercado fonográfico, artistas tinham liberdade de expor suas idéias e eram bem menos limitados por gravadoras multinacionais, produtores musicais gananciosos, gerentes de marketing etc. Músicas podiam ter 10 minutos, arranjos podiam soar estranhos e originais, refrões repetitivos não eram obrigatórios. Ao mesmo tempo, a necessidade de gerar receita e impor seus artistas pouco talentosos, tornou necessários suntuosos investimentos em publicidade, estratégia e marketing. Em termos metafóricos poderíamos dizer que dinheiro gera exposição, convence e transforma artistas medianos em astros.
Assim, normas foram criadas: 3:30 minutos para cada música, um disco tem que ter 12 canções, estilista contratados para assessorar nas roupas, etc. As rádios cada vez mais passaram a cobrar para colocar no ar os artistas dessas gravadoras, afinal se eles gastam tanto seria justo a rádio dividir essa fatia do bolo também.
Mais tarde, no ano de 1999 um universitário americano chamado Shawn Fanning fundaria o Napster, um site de trocas de música online, que seria o início da resposta ao preço astronômico que os discos atingiam dado os gastos da gravadora na tentativa de ditar o gosto das pessoas. Concomitantemente ocorreu um significativo advento de processos que baratearam equipamentos de estúdio tornando possível se montar uma central de gravação em um quarto de um apartamento com baixo investimento.
Hoje os músicos produzem e divulgam seu trabalho diretamente, e as gravadoras perderam sua utilidade e navegam por prejuízos astronômicos basicamente pelo fato de não terem tido humildade ou capacidade para entenderem de pessoas. Não souberam ganhar dinheiro ouvindo as pessoas e respeitando seus gostos, castraram a liberdade do artista, deixaram os talentosos de lado e investiram em marketing, e preferiram ditar as tendências. Infelizmente levaram para o fundo do poço, junto com eles próprios, direitos autorais de compositores e criadores, mas isso ainda vai ser resgatado pelos próprios artistas que cada vez mais tendem a serem donos de suas obras. Viva o Shawn!!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O marketing e a vida...

As empresas e lojas no bombardeiam diariamente com todo arsenal de mirabolantes planos de persuasão, treinamentos teatrais junto a equipe de vendas, atendimentos via clichês ricos em gerúndio e insistentes apelos emocionais ao bem estar das famílias. Nunca sabemos se treinam demais porque sabem que não agradam ou se não agradam porque são treinados demais. Tais marcas esquecem que o melhor atendimento ainda é o humano, de gente pra gente, e que simplesmente bastaria um atendente se colocar no lugar do cliente. Mais nada.
Foi-se a época que você contava com a atenção e o olhar das pessoas até para te dar uma informação de onde encontrar aquilo que somente outra empresa teria. Enquanto consumidores somos apenas um número na fila de atendimento ou no cadastro de clientes; se não estamos ali para gerar lucro instantâneo simplesmente não existimos no momento. Ainda podemos encontrar esse tipo de boa vontade no interior do Brasil, mas nas cidades grandes o semblante de quem nos atende muitas vezes assusta. Certamente as empresas também não estimulam seus funcionários a darem o melhor de si.

Ao mesmo tempo em que a realidade é tão agressiva, existem exceções que merecem ser lembradas. Algumas pessoas nascem ou desenvolvem o dom de ser tudo o que os teóricos de marketing levam décadas escrevendo de forma tão confusa e pseudo-moralista no que tange a relações comerciais. Repare como textos de marketing sempre passam uma noção de como o autor acha fácil que pessoas sigam seus ensinamentos e transformem um ambiente comercial tenso numa Disneylândia. A história a seguir narra meu encontro com uma dessas exceções que eu chamo simplesmente de gente.
Em bairros tipicamente elitistas como Ipanema, arranjar pequenos consertos de peças mais simples torna-se extremamente penoso. Como são tarefas muito rápidas fica difícil para o prestador de serviços cobrar o preço do tamanho da sua ilusão de que todos no bairro são milionários. Ainda mais quando estamos nos referindo a profissões extintas como sapateiros, relojoeiros, alfaiates etc. Foi justamente numa ocasião em que se fez necessário um pequeno trabalho de reposição de uma bateria de um relógio, que eu conheci a figura encantadora do Sr. Fernando.

Eu vaguei por alguns minutos em Ipanema e ao entrar na galeria 303 da Visconde Pirajá me deparei com uma loja (Florenza) que fugia ao padrão das joalherias multinacionais que estendem tapetes vermelhos, servem champagne e seguem a risca os ensinamentos de seus diretores de marketing e vendas. Curioso, entrei e fui recebido por uma simpática atendente (gentileza e simpatia são contagiantes) que me pediu 2 minutos até que a pessoa responsável terminasse uma consulta em andamento. De longe eu observava aquele senhor que parecia cativar sua cliente ao ponto de parecerem velhos amigos, com sorrisos e muita boa vontade que não se aprende em livros. Eis que chega minha vez...
O sorridente senhor me cumprimentou, sentou-se em sua mesa, pegou meu relógio e examinou. Pegou várias ferramentas, testou uma infinidade de modelos de bateria que poderiam me servir e concluiu que o modelo ideal estava em falta em sua loja. Eu já estava sem graça, pois ele havia polido a lente do visor do relógio, desempenado a pulseira, trocado o pino de segurança e estava aflito de não ter minha peça. Na verdade ele estava mais aflito que eu para resolver meu problema. Normalmente alguém com essa boa vontade teria terceiras intenções, me cobraria uma fortuna. Mas não era o caso do Sr. Fernando.

O simpático joalheiro me pediu 2 dias para que seu assistente trouxesse minha bateria, mas ele me ligaria avisando. Passadas as 48 horas recebo o telefonema informando que meu relógio já estava funcionando e que eu poderia passar na loja para retirá-lo. Fui até a loja, o relógio me foi apresentado mais novo de quando o comprei e eu muito agradecido perguntei quanto me custaria. O Sr. Fernando quase pareceu ofendido e disse que de maneira alguma me cobraria por algo tão simples. Eu já não sabia o que dizer. Voltei várias vezes lá e nunca mais aceitei sua cortesia de não me cobrar, pois quando alguém merece tanto nos dá vontade de pagar em dobro (será que os mestres do marketing sabem disso?). Sempre indico a loja aos amigos; é como um favor a mim mesmo quando peço que o procurem. Essas pequenas lições não podem acabar. Essas ilhas são portos seguros e flutuam perdidas nos bravos e arrogantes oceanos capitalistas.

Não sei a história desse homem, sua origem, seu passado nem sua formação. Sua loja não precisa de SAC, não anuncia na mídia, não contrata consultores internacionais pra treinar sua equipe nem é freqüentada por celebridades. Mas tenho certeza que poucas pessoas na cidade são tão queridas por seus fiéis clientes como Sr Fernando. Ele não está rico com sua empresa, mas com certeza é muito mais feliz do que muitos que fizeram fortuna em seu ramo. Ele sintetiza na prática tudo o que os livros tentam ensinar e se perdem na essência mais elementar de qualquer relação de convivência: basta ser humano para agradar outra pessoa.

Como eu queria que o Sr Fernando tivesse 300 lojas entre farmácias, restaurantes, livrarias, empresas de telefonia, etc. Com certeza eu seria muito mais feliz !!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Esse tal João...



A história de Santo Cristo partia da figura de um menino inocente, sofrido e inquieto que sabia que precisava ganhar o mundo pra viver sua epopéia. A trilha musical que narrava a história transitava entre o folk, rock e até mesmo o reggae. A letra tinha palavrões (isso era novo) que a rádio substituía com o famoso sinal sonoro (“pi”) até hoje usado pra substituir palavrões nas emissoras de TV e rádio.

Essa canção que já era um filme na mente de quem ouvia, contava a saga de um brasileiro que aparentemente jamais deixará de existir. Aquele João resumia quase todas as dores sociais possíveis. Ele estava tão próximo do nosso cotidiano que parecíamos conhecê-lo desde pequenos.

Em sua trajetória, encontramos várias nuances de uma rica personalidade tão humana quanto a própria existência. João durante sua vida foi tudo:


Sofrido ("Quando criança só pensava em ser bandido, ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu").

Ambicioso ("Sentia mesmo que era mesmo diferente, sentia que aquilo ali não era o seu lugar")

Sonhador (“Ele queria sair para ver o mar e as coisas que ele via na televisão”)

Sedutor (“Comia todas as menininhas da cidade de tanto brincar de médico aos doze era professor”)

Corajoso (“Não tinha nenhum medo de polícia, capitão ou traficante, playboy ou general”)

Sensível (“Foi quando conheceu uma menina e de todos seus pecados ele se arrependeu”)

Ético (“não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança, isso eu não faço não").

Marginal ("Falou com Pablo que queria um parceiro que também tinha dinheiro e queria se armar")

Passional (“E mato também Maria Lúcia, aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor”)

Mito (“E o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer”)

Herói (“Ele queria era falar pro presidente, pra ajudar toda essa gente que só faz...sofrer.”)

Em sumo, João era, ainda é, e sempre será um país chamado Brasil. Eu só me pergunto como devem ter sido os momentos em que essa canção foi escrita. Quando veio a primeira idéia e a última sessão no estúdio onde ela foi gravada...isso é pura história brasileira.

9 minutos...



Em algum dia no final do ano de 1987 (novembro ou dezembro) fui à casa de um amigo que morava alguns andares acima do meu apartamento. O assunto era pra ser rápido, e se tratava de uma venda de algum equipamento meu de guitarra para ele. Ao chegar a sua casa, vi numa estante perto dos toca-discos, uma capa inédita cujo disco (vinil) já se encontrava na vitrola desligada. Ele me disse que tinha acabado de chegar às lojas e que fora dos primeiros a comprar: chamava-se “Que país é esse?", da Legião Urbana.

Embora eu já fosse fã dos discos anteriores e acompanhasse atentamente as notícias sobre o novo disco que resgataria algumas canções antigas da banda, ao me deparar com a capa já não gostei muito. A foto do quarteto me fez pensar que aquele disco poderia ser mais uma exigência contratual com a gravadora do que algo realmente do coração dos caras.


Misturando minha ansiedade em ouvir cada música e a mania de tocar um pouco de cada faixa antes de me aprofundar, o amigo foi me mostrando cada faixa a meu pedido. Logo senti uma Legião mais revoltado que parecia resgatar a veia punk que o originou desde os tempos do Aborto Elétrico. Músicas como “Que país é esse?”, “Química”, ‘Conexão Amazônica” e Tédio (com um T bem grande pra você) soavam bem fortes porém meio adolescentes. “Angra dos Reis” e “Eu sei” davam o contra peso muito especial com suas ricas melodias e letras.

Eis que já com minha curiosidade quase saciada e com a sensação de que entendera a estética da obra, surge então a faixa que transformaria um dia comum em um momento histórico. Momento esse que nos faz deparar com possíveis mágicas com as quais a vida pode nos brindar às vezes. Sob os tímidos chiados causados pelo atrito da agulha no vinil, surgiam os primeiros acordes do que parecia uma balada folk, que em poucos segundos me deixaria catatônico e perplexo ao mesmo tempo. A bela voz grave de Renato entoou “Não tinha medo o tal João de Santo Cristo, era o que todos diziam quando ele se perdeu. Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda, só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu”.



De mero ouvinte ainda de pé próximo as caixas de som, eu procurei o encarte com a letra enquanto me ajeitava às pressas no sofá com as mãos quase trêmulas. Talvez eu parecesse um cientista após a descoberta da fórmula que há séculos buscava. Pedi ao amigo que recomeçasse a faixa, pois eu não tinha prestado a devida atenção já que o susto da descoberta ainda me deixava em certo transe. Começava ali uma jornada de horas e horas ouvindo a mesma música nos próximos dias em casa (disco comprado) como milhares de brasileiros que até hoje em dia sabem a letra desta obra prima da sensibilidade humana que dura mais que perfeitos 9 minutos.


Meus ouvidos e minha mente revezavam a atenção a música ao mesmo tempo em que se indagavam: isso é real? Está acontecendo? Esse cara escreveu isso mesmo?. Mas cada nota dos violões, cada estrofe da letra e cada harmonia na voz de Renato era um beliscão na alma, que me dava certeza que aquilo não era um sonho. Em pouco tempo até gananciosas rádios se curvaram aquele hino épico, ocupando sua programação com aquela música tão pedida pelos ouvintes, que tirava o espaço de 2 ou 3 músicas mais comerciais.